EROSÃO - DIAGNÓSTICO E CONTROLE

7. CARACTERIZAÇÃO DA SUB-REGIÃO C

A sub-região C compreende os municípios das regiões norte e noroeste e corresponde ao trecho inferior do rio Paraíba do Sul, até a sua foz. Suas características mais importantes são a pecuária e a cultura da cana-de-açucar. A cana é cultivada principalmente no município de Campos dos Goytacazes, que é o maior município da bacia, tanto em extensão como em população. Destaca-se, ainda, o crescimento do setor mineral para pedra ornamental e argila.

Três sub-bacias se destacam na sub-região C. Pela margem direita, a sub-bacia do rio Dois Rios, formado pelos rios Negro e Grande, da sub-região B. Pela margem esquerda, as sub-bacias dos rios Pomba e Muriaé, sendo que ambos nascem no Estado de Minas Gerais.

O rio Dois Rios, excetuando-se os seus formadores (os rios Grande e Negro), drena apenas terras do município de São Fidélis e, portanto, encontra-se inserido apenas no Estado do Rio de Janeiro. A bacia do rio Pomba, com uma área de 9.180 km², incluindo as terras mineiras, drena os municípios de Miracema, Santo Antônio de Pádua, Aperibé e Cambuci. E a bacia do rio Muriaé, com um total de 7.962 km², drena a maior parte dos municípios da sub-região C: Porciúncula, Varre-Sai, Natividade, Laje do Muriaé, Itaperuna, São José do Ubá, Cambuci, Italva, Cardoso Moreira e uma pequena parte de Campos dos Goytacazes, na confluência com o rio Paraíba do Sul.

O rio Paraíba do Sul percorre seu trecho final na região dos municípios de Campos dos Goytacazes, São João da Barra e São Francisco do Itabapoana. Na vasta planície flúvio-marinha compreendida por esses municípios, diversas alterações foram realizadas para a cultura da cana-de-açucar, desde o início do século, com represamentos, retificações e desvios de drenagem, que afetaram o leito natural de inundação do rio Paraíba do Sul. Extensos diques ao longo do rio interromperam grande parte do fluxo de água com a superfície, restringindo significativamente a extensão da bacia neste trecho.

7.1 Meio Físico

A sub-região C é a que apresenta o relevo menos acidentado da bacia. Predominam as colinas e as planícies na região de Campos dos Goytacazes e São João da Barra. O relevo fica mais acidentado nas regiões de Santo Antônio de Pádua, Natividade e Porciúncula. Grande parte da sub-região C apresenta um clima quente (temperatura média acima de 18 ºC) e seco (com 7 a 10 meses de estiagem). A ausência de cobertura florestal na quase totalidade da sub-região, associada às condições climáticas, gerou uma situação de escassez de recursos hídricos em muitas regiões. A predominância de podzólicos confere aos solos erodibilidade de alta a muito alta, atenuada pelo relevo menos acidentado.

7.2 Vegetação e Uso da Terra

A facilidade de acesso à região, com relevo de colinoso a plano, contribuiu para o quase extermínio da cobertura florestal original na sub-região C, que é hoje a mais pobre em florestas na bacia. São cerca de 23 mil hectares, esparsamente distribuídos e representando apenas 3,5 % de toda a área compreendida pelos municípios da sub-região na bacia.

O município que tem a maior área de remanescentes florestais é São Fidélis, com 7.371 ha. No entanto, essa área representa apenas 7,2 % da extensão do município e a maior parte encontra-se na região abrangida pelo Parque Estadual do Desengano. O percentual de remanescentes florestais em cada município, no perímetro da bacia, é extremamente baixo, com municípios chegando a zero de cobertura florestal, como Italva e Aperibé (quadro 7.2.a).

O município que apresenta o maior percentual de florestas remanescentes é Varre-Sai, com 32,5 %. Porém, neste valor estão compreendidas apenas as florestas existentes na área do município contida na bacia do rio Paraíba do Sul. A maior parte deste município (87%) encontra-se na bacia vizinha, do rio Itabapoana. Em relação a toda a sua extensão, Varre-Sai tem apenas 13% de florestas. Ou seja, a maior parte de sua cobertura florestal está na bacia do rio Paraíba do Sul - cerca de 58,7% - concentrada nas regiões mais altas do município.

A vegetação secundária ocupa uma área maior do que a área de remanescentes florestais (tal qual em toda a bacia). Mas não chega a ser expressiva, como nas outras sub-regiões, onde atinge uma área em torno de 150 mil hectares em cada. Somando-se as áreas de remanescentes florestais com as de vegetação secundária, não chega a 9% o total de áreas com cobertura vegetal relativamente mais densa do que as áreas de campos/pastagens ou agricultura na sub-região C.

A pecuária é a atividade predominante na sub-região C, com as pastagens ocupando cerca de 80% de sua extensão. Em alguns municípios passa de 90%, como em Santo Antônio de Pádua, Itaocara e Itaperuna. De acordo com o último Censo Agropecuário (1995/6), existem 583.120 hectares de terras em uso para pastagens, no conjunto dos município da sub-região.

Além da maior extensão de área utilizada para pecuária, em relação às outras sub-regiões, a sub-região C foi a única que não sofreu redução desta atividade no período 1985 - 1995/6 (quadro 3.2.c). Ao contrário, houve um aumento de 3,7%, resultante de um maior investimento em pastagens plantadas. Em toda a bacia, aliás, houve aumento de pastagem plantada e redução nas chamadas "pastagens naturais" no referido período.

Nesta diferenciação, considera-se como "naturais" as pastagens que são renovadas por meio de queimadas e rebrota natural do capim, e "plantadas" as pastagens que são renovadas por meio de preparo da terra, adubação, calagem e replantio da gramínea. Os produtores que não podem (ou não querem) arcar com os custos de re-plantar o pasto, optam pela queimada ou, no máximo, pela capina manual.

O uso freqüente de fogo e a expansão indiscriminada de pastagens, em relevo íngreme, levou as terras a uma condição de improdutividade tal que somente com um melhor manejo é possível ainda praticar uma pecuária mais rentável. Por isso, principalmente, houve aumento da área com pastagens plantadas. Na sub-região C, esse aumento em pastagens plantadas foi mais significativo nos municípios de Itaocara, Itaperuna, Miracema, Natividade, Porciúncula e Campos dos Goytacazes.

Em Campos dos Goytacazes havia, em 1985, um total de 47.087 ha ocupados com pastagens plantadas e em 1995 esse valor subiu para 92.901 ha, quase o dobro. As pastagens naturais deste município foram reduzidas em cerca de 28 mil hectares. É provável que uma boa parte do acréscimo em pastagens plantadas seja de áreas antes utilizadas para a lavoura, em especial a cultura da cana-de-açucar, que sofreu uma redução de 24.771 ha somente em Campos, o maior produtor de cana do Estado, respondendo hoje por 60% da área cultivada (somando-se a área cultivada em São João da Barra, este percentual sobe para cerca de 75%).

A cultura de cana-de-açucar na baixada campista existe desde o século XVII, quando a região de domínio deste produto agrícola ainda era a baixada fluminense (no recôncavo da baía de Guanabara). Nas primeiras décadas do século XIX os canaviais já haviam dominado a paisagem litorânea do Estado, incluindo a baixada campista. Um século depois – no início do século XX – a baixada campista torna-se a região de domínio da cana, alcançando também os tabuleiros e colinas entre as escarpas da Serra do Mar e a planície, formando uma extensa monocultura.

Apesar da expressiva redução na atividade agrícola em todo o Estado nos últimos anos, incluindo a cana-de-açucar, esta cultura ainda é a maior do Estado, ocupando cerca de 136,7 mil hectares, o que representa 62% da área ocupada pelas principais lavouras. Atualmente, os municípios de Campos dos Goytacazes, São João da Barra, Quissamã e Macaé respondem por 90% desta produção canavieira.

No quadro a seguir, observa-se que, embora as lavouras ocupem extensas áreas da baixada campista (nos municípios pertencentes à bacia do rio Paraíba do Sul), as pastagens ainda ocupam maiores extensões de terra, assim como em todo Estado. E, ao contrário das lavouras, as pastagens vêm aumentado em extensão, tomando lugar das florestas remanescentes e das áreas agrícolas abandonadas.
   

Quadro 12: Uso da Terra na Baixada Campista, nos anos de 1940, 1985 e 1995 - IBGE.  

MUNICÍPIO

LAVOURAS

PASTAGENS

MATAS

Hectares

%

Hectares

%

Hectares

%

USO DA TERRA na baixada campista – em 1940

Campos dos Goytacazes

104.788

34,1

127.283

41,4

75.165

24,5

São João da Barra

13.235

15,5

50.389

58,9

21.917

25,6

USO DA TERRA na baixada campista – em 1985

Campos dos Goytacazes

148.823

45,9

146.808

45,3

28.688

8,8

São João da Barra

44.362

38,8

61.685

53,9

8.374

7,3

USO DA TERRA na baixada campista – em 1995

Campos dos Goytacazes*

101.256

31,9

201.155

63,3

15.306

4,8

São João da Barra

33.458

34,5

60.152

62,0

3.441

3,5

* incluindo Italva e Cardoso Moreira, desmembrados de Campos em 1986 e 1993, respectivamente.

Como já foi dito, a cana-de-açucar, que representa a maior parte das lavouras da região e mesmo de todo o Estado, vem apresentando um pronunciado declínio na sua região de domínio – a baixada campista. O desenvolvimento e o domínio da cana nesta região deveu-se principalmente a alta fertilidade dos solos da planície – conhecido como massapê. Segundo relatos históricos, esta fertilidade natural, prorcionada pelo material aluvionar depositado pelas enchentes do rio Paraíba do Sul, era tão alta que poucos estabelecimentos agrícolas necessitavam fazer uso de adubação química ou orgânica. Na década de 1940, a região apresentava a maior produtividade de todo o país, entre 54 e 68 toneladas por hectare (Mendes, 1950). Naquele mesmo período (entre 1930 e 1970), foram realizadas grandes obras de drenagem, secando grandes alagados, que permitiram a expanção dos canaviais.

No entanto, a partir da década de 1970, começa a se evidenciar um declínio na agroindústria canavieira do norte-fluminense. A produtividade média cai para 41,8 t/ha. Entre 1982 e 84, o Instituto do Açucar e do Álcool (já extinto) elabora um projeto de irrigação e drenagem para uma área de 250.000 ha (o PROJIR), com o intuito de recuperar a economia canavieira da região. Segundo documento do Projeto, a queda de produção era "devida à escassez de matéria-prima, em decorrência do déficit pluviométrico, aliada à deficiência dos processos agrotecnológicos adotados na região". Com irrigação, esperava-se elevar a produtividade da cana para mais de 80 t/ha. Contudo, o PROJIR não "decolou".

De certo modo, parece que as grandes obras de saneamento da baixada campista, a longo prazo, trouxeram alterações ambientais que, ao contrário do pretendido, prejudicaram a economia agrícola da região. Solos cuja alta fertilidade natural era mantida pelas cheias do Paraíba do Sul, foram perdendo suas fontes de nutrientes com a drenagem dos terrenos e a construção de diques nas margens do rio, que impediram o extravasamento de suas águas para a planície. A extensa monocultura da cana-de-açucar é outro fator agravante. A cana ocupa todos os espaços possíveis e impossíveis, indo até a margem dos rios e lagoas. Não foram preservadas matas ciliares em praticamente nenhum rio dessa região. A falta de umidade, o peso de máquinas agrícolas e o não retorno de matéria orgânica para o solo causam a compactação e o empobrecimento do mesmo.

Para resolver o problema, "entende-se" que a irrigação seria imprescindível – trazer de volta a água que não chega mais à planície. No entanto, talvez fosse mais eficiente reavaliar o uso da terra na região, considerando-se os impactos ambientais e sociais da monocultura da cana, das pastagens, dos usos múltiplos da água e, principalmente, considerando-se a importância da cobertura florestal na "produção de água", cobertura esta que foi praticamente dizimada do norte e noroeste do Estado, afetando drasticamente o ciclo hidrológico na bacia do Paraíba do Sul. Os recursos financeiros estimados para o PROJIR, da ordem de mais de US$ 300 milhões, talvez fossem melhor aplicados na recuperação de mananciais, através do reflorestamento de nascentes e faixas ciliares dos cursos d’água, e na implantação de culturas diversificadas e adequadas às restrições ambientais.

No entanto, apesar da escassez de florestas, a sub-região C é a que menos investe em reflorestamento. De acordo com o último Censo Agropecuário (1995/6) exitem apenas 3.152 hectares de florestas plantadas nos municípios que fazem parte dessa sub-região e a maioria (como sempre) é de eucalipto. Apesar de pouco, houve um acréscimo significativo nos últimos 10 anos: em 1985 havia menos da metade, cerca de 1.300 hectares. Por outro lado, houve uma redução de 26.610 hectares de matas naturais em propriedades rurais (segundo a mesma fonte).

Plantios florestais com espécies nativas começam a surgir em iniciativas isoladas. A Secretaria de Agricultura do Estado (SEAAP), através da Assessoria Regional Noroeste, distribuiu 52.000 mudas de nativas para o reflorestamento de 80 ha em nascentes nos municípios da região noroeste, embora os incentivos ainda sejam maiores para eucalipto: a SEAAP, junto com o IEF, pretende distribuir 2.500.000 mudas para o plantio de 1.000 ha, das quais já foram entregues 430.000 mudas.

A fruticultura também tem recebido mais atenção, embora ainda não tenha tomado vulto. A cultura que desperta mais interesse ainda é a cafeicultura. Em São Fidélis, a prefeitura, em parceria com a EMATER, iniciou a produção de mudas para distribuição aos produtores rurais, e a meta é produzir 100 mil mudas de café por ano. No Horto Municipal de São Fidélis, que dispõe de uma boa infra-estrutura, além da produção de mudas de café e outras espécies vegetais (nativas florestais, hortaliças e olerícolas), vem sendo desenvolvido um projeto de plantas medicinais, desde a produção das plantas até a confecção de remédios e atendimento a população em um ambulatório já construído.

A prefeitura de Miracema vem investindo na consolidação de seu Parque Ecológico, uma área de 16,7 ha, onde já foram plantadas 9.000 mudas de espécies nativas, incluindo frutíferas. Com apoio do FECAM (Fundo Estadual de Conservação Ambiental) o município pretende criar infra-estrutura no Parque Ecológico para produção de mudas, reflorestamento e educação ambiental. Outra iniciativa da prefeitura de Miracema é um projeto integrado na bacia do ribeirão Santo Antônio - que atravessa a cidade e deságua no rio Pomba - envolvendo a recuperação das nascentes, turismo, piscicultura e irrigação.

Nos municípios de Italva e Cardoso Moreira foram implantados 20 ha de reflorestamento com nativas em duas microbacias – Marimbondo (em Italva) e Quimbira (em Cardoso Moreira) – de um projeto que visa implantar 150 ha. No âmbito deste projeto, elaborado no Instituto de Florestas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e implantado com recursos do Banco Mundial (via PED), foram construídos dois viveiros de produção de mudas, um em cada município. O município de Italva, com uma área total de aproximadamente 30 mil hectares, é absolutamente desprovido de cobertura florestal, apresentando apenas 2,6 % de capoeiras (vegetação secundária). Cardoso Moreira tem apenas 1% de remanescentes florestais e 6,4 % de vegetação secundária.

Na região da agroindústria canavieira, começa a surgir alguma preocupação ambiental. As usinas Sapucaia e Santa Cruz vêm realizando plantios com nativas para a recuperação de faixas ciliares nos rios Muriaé e Paraíba do Sul. A usina Santa Cruz plantou 3.750 mudas em 1,5 ha nas margens do rio Paraíba do Sul e na usina Sapucaia foram plantados 4,5 ha nas margens do rio Muriaé. No entanto, os investimentos em eucalipto ainda são maiores, com 1.300 ha na Santa Cruz e 120 ha na Sapucaia; o eucalipto é utilizado como combustível para as usinas. Outra iniciativa dessas usinas é o levantamento dos remanescentes florestais em suas propriedades, visando a criação de Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs) – unidade de conservação em áreas particulares que permite ao proprietário isentar-se do imposto territorial rural.

Essas iniciativas fazem parte do atual contexto de inserção do setor industrial nas normas e diretrizes ambientais, resultantes também de pressões da opinião pública e dos órgãos ambientais, e tendem a se desenvolver a médio e longo prazos, embora as prioridades econômicas da agroindústria canavieira ainda resultem em atitudes pouco ambientalistas. A usina Santa Cruz, por exemplo, está iniciando a recuperação de uma mata ciliar no rio Imbé (fora da bacia) que ela mesma destruiu para plantar cana; foi autuada pelo IBAMA e teve que comprometer-se a recuperar a área.

Além da agropecuária, uma atividade econômica importante na sub-região C é a extração mineral. Destaca-se a pedra ornamental, em franca exploração no município de Santo Antônio de Pádua, onde existem hoje cerca de 175 empresas mineradoras, com mais de 300 frentes de lavra. Na baixada campista há uma expressiva exploração de argila e um grande número de indústrias de cerâmica. Segundo o DRM, existem cerca de 120 ceramistas e após a retirada de argila as área são recuperadas e reutilizadas, para pasto ou cultura da cana. Um grande potencial, no entanto, ainda pouco explorado é o de água mineral. Na sub-região C encontram-se os dois municípios com o maior potencial do Estado - Santo Antônio de Pádua, onde existem quatro fontes conhecidas, mas só uma está sendo aproveitada, e Itaperuna, também com quatro fontes, duas próximas a sede e duas no distrito de Raposo, onde as águas são conhecidas por seus efeitos terapêuticos e onde já existe uma infra-estrutura de estância hidromineral.

7.3 População

A população estimada para os municípios da sub-região C, excluindo-se os distritos que situam-se fora da bacia, é de 655.066 habitantes. Quase a metade deste total (49%) está no município de Campos dos Goytacazes, o maior da bacia (quadro 3.4.a).

Mesmo com um expressivo uso agrícola, com a maior lavoura do Estado, a sub-região C, tal como toda a bacia, concentra sua população nas áreas urbanas (82,5%). Apenas três municípios chegam a ter uma população rural superior a 50% da total – São Francisco do Itabapoana, São José do Ubá e Varre-Sai, todo recém criados.

Campos dos Goytacazes, tem apenas 6,1 % de sua população nas áreas rurais, apesar de ter a maior população rural da sub-região (e a segunda de toda a bacia) e ainda ser responsável por ocupar o maior número de pessoas com a atividade agropecuária entre todos os municípios do Estado (17.774 pessoas). Em 1940, a população rural de Campos representava 70% da população total do município e era de 157.602 habitantes – quase a metade de toda a população rural de hoje na bacia; nem a população urbana da maioria dos municípios da bacia chega a tanto: apenas 5 (cinco) municípios na bacia chegam a apresentar, nas áreas urbanas, uma população superior a 150.000 habitantes.

O êxodo rural, já bastante comentado neste texto e que continua ocorrendo em todo o Estado, teve na sub-região C a maior redução em população rural da bacia, em números absolutos e relativos, no período 1991-96 (quadro 3.2.c). Os municípios que sofreram as maiores perdas relativas foram Itaperuna, Laje do Muriaé e Miracema, todos com reduções superiores a 20%. E os que sofreram as maiores perdas em números absolutos foram Itaperuna, Itaocara e Santo Antônio de Pádua.

Como ocorre na maioria dos municípios da bacia, a redução de população rural é acompanhada do aumento na população urbana, que também apresenta na sub-região C o maior percentual de crescimento urbano, entre as três sub-regiões, para o período 1991-96. Em valor absoluto, a sub-região A foi a que apresentou maior crescimento nas áreas urbanas. Na sub-região C, destacam-se os municípios de Campos e Itaperuna com os maiores acréscimos em número de habitantes nas áreas urbanas: 12.207 e 8.135 habitantes a mais, respectivamente.

7.4 Erosão na Sub-Região C

Nesta sub-região observam-se processos erosivos menos intensos, com predomínio da erosão laminar (ou superficial), chegando a sulcos e ravinamentos (foto 16). Raramente observam-se voçorocamentos. No mapeamento de suscetibilidade à erosão verificou-se a ausência quase total da classe de muito alta suscetibilidade, que aparece apenas nos municípios de Itaocara e Itaperuna. Já a classe de alta suscetibilidade é bem expressiva e maior do que nas sub-regiões A e B (quadro 7.4.a e quadro 7.4.b).

A condição de alta suscetibilidade é determinada principalmente pela ocorrência de podzólico vermelho-amarelo, classe de solo que apresenta erodibilidade muito alta na bacia, associada ainda à densidade de drenagem muito fina. Esta condição só poderia ser atenuada com a presença de cobertura florestal, o que não se verifica na sub-região C, a mais pobre em remanescentes florestais. Sem uma cobertura vegetal mais densa, de florestas ou mesmo de vegetação secundária, o quadro resultante da sobreposição do meio físico com vegetação e uso da terra (quadro 7.4.b) não apresenta alterações siginificativas daquele que representa apenas a suscetibilidade do meio físico à erosão (quadro 7.4.a).

Os municípios que têm as maiores áreas de florestas remanescentes – São Fidélis e Cambuci, com 7.371 e 4.230 ha, respectivamente – não chegam a reduzir significativamente a extensão de suas áreas na classe de alta suscetibilidade à erosão. São Fidélis e Santo Antônio de Pádua, juntos, respondem por 50% desta classe. Em Santo Antônio de Pádua, boa parte desta classe encontra-se nas regiões que estão sendo exploradas pela mineração de pedra ornamental.

Os municípios da região noroeste do Estado, mais a montante na sub-região C, que apresentam um relevo mais movimentado do que os da região norte, mais a jusante, têm seus processos erosivos associados principalmente às pastagens. Com predomínio das chamadas pastagens "naturais", essa região sofre freqüentes queimadas em seus longos períodos de estiagem, empobrecendo o solo em matéria orgânica e expondo-o à ação erosiva das chuvas de verão. As pastagens plantadas, que causam menos danos aos solos, predominam nos municípios da região norte, principalmente em Campos dos Goytacazes e em São João da Barra.

A expansão das áreas urbanas também vem acarretando problemas de erosão em encostas indevidamente ocupadas. Apesar de menos freqüentes e intensos do que nas outras sub-regiões, ocorrem pelas mesmas razões: crescimento urbano rápido e descontrolado, ausência de planejamento de uso do solo urbano e de respeito aos critérios geotécnicos de ocupação, entre outros. As cidades que apresentam as piores situações de erosão em encostas ocupadas na sub-região C são Itaperuna e Miracema. Ambas foram severamente afetadas pelas fortes chuvas que cairam em janeiro de 1997. Em Itaperuna houve muitos movimentos de massa, afetando muitas moradias e o município ainda não solucionou os problemas criados, por falta de recursos financeiros e técnicos. Há ainda pessoas morando em abrigos e nenhuma obra de contenção foi realizada.

Itaperuna está entre as cidades que mais sofreram com as enchentes ocorridas naquela ocasião, além de Cardoso Moreira, Laje do Muriaé, Natividade e outras também na região mineira da bacia. As enchentes de janeiro/97 (foto 17) demonstraram que a sub-região C sofre mais com as conseqüências da erosão sobre a drenagem do que no restante da bacia; logicamente, por compreender o trecho inferior do rio Paraíba do Sul, onde o relevo passa de mais acidentado a plano e para onde aflue um maior volume de água com grande parte dos sedimentos produzidos por erosão a montante e em uma calha menos profunda, assoreada por esses sedimentos.

Vale lembrar que a erosão laminar, que predomina nesta sub-região, embora aparente ser menos danosa, pode deslocar e transportar grandes quantidades de solo para os cursos d’água, principalmente se o relevo apresentar encostas longas e de poucas reentrâncias.

A localização preferencial das cidades nas margens dos rios torna-as mais suscetíveis às enchentes que extravasam o leito dos mesmos. A ausência de matas ciliares contribui ainda mais para a erosão destas margens. Com o crescimento direcionando-se para as encostas, essas cidades passam a sofrer duplamente – deslizamentos de terra e inundações – como no caso de Itaperuna, situada às margens do rio Muriaé e com muita ocupação irregular nas encostas.

Nos municípios da região norte – Campos dos Goytacazes, São João da Barra, São Fidélis e Cardoso Moreira – os processos erosivos são de baixa ocorrência, predominando nas partes mais movimentadas do relevo, incluindo a região dos tabuleiros, à margem esquerda do rio Paraíba do Sul, onde a cana é largamente cultivada.

Na foz do rio Paraíba do Sul vem ocorrendo um processo de erosão marinha, desde a década de 1960, que já destruiu parte significativa do litoral de Atafona, distrito de São João da Barra (foto 18). Diversas hipóteses são levantadas para explicar o fenômeno, atribuídas tanto a condições naturais (dinâmica morfológica do delta, transgressões marinhas, etc.) como artificiais (influências antrópicas). Dentre as possíveis causas de origem antrópica, destacam-se as obras de saneamento na baixada campista (drenagem, dragagem, diques, espigões, guias-correntes, etc) e a construção de barragens no rio Paraíba do Sul e afluentes, que diminuiram as vazões líquidas e sólidas para a embocadura do rio. Entre as barragens, a de Santa Cecília é apontada como de maior importância – situada no rio Paraíba do Sul, 6 km a montante da cidade de Barra do Piraí, retira 160 m³/s de água para o sistema LIGHT-CEDAE que abastece a Região Metropolitana do Rio de Janeiro; após sua construção, em 1953, a vazão a jusante foi drasticamente reduzida. Com a redução de vazão, o rio teve reduzida também a sua capacidade de transportar os sedimentos produzidos por erosão na bacia e na própria calha, resultando em assoreamento em diversos trechos de baixa circulação da água (Costa, 1994).